Rio de Janeiro com o Espírito Carioca

Entrevista: Travessias 2 - Arte Contemporânea na Maré

Um papo super bacana sobre o projeto que leva arte à favela da Maré

post por Amanda Scarparo - 18 Abr 2013 às 03:03

Travessias, Eduardo MagalhãesVocê acha que arte é só para entendidos? Que lugar de exposição é galeria? Que evento de arte tem que ter drinks e canapés passando na bandeja? Se sua resposta foi sim para alguma destas perguntas, você precisa conhecer o projeto Travessias – Arte Contemporânea na Maré, e ver como a arte pode ser muito mais e o melhor: sem ser blasé. Mais que um evento de arte, o Travessias é um grande encontro. Um encontro dos cariocas com a arte, com diferentes áreas da cidade, com outros cariocas e outros hábitos.

O projeto apresenta obras de artistas como Vik Muniz, Ernesto Neto, Carlos Vergara, Daniel Senise, Arjan Marins, Luiza Baldan, Lucas Bambozzi, Ratão Diniz, Marcelo Silveira e Cadu sob a curadoria de Raul Mourão e Felipe Scovino. E fica até 23 de junho de portas abertas para quem quiser fazer a travessia para um universo de sensibilidade, de arte e de experiências que vão muito além da contemplação.
 

(Foto: Eduardo Magalhães)

O Posto Zero quis saber mais e a Luiza Mello, da Automatica, que assina a produção e a realização do Travessias com o Observatório de Favelas, respondeu algumas perguntas pra gente. E o que era para ser dois dedos de prosa virou uma entrevista super bacana. Arte, Rio de Janeiro, educação, responsabilidade social e sensibilidade tudo junto e sem cair no clichê. Duvida? Veja só!

Como foi o desenvolvimento do projeto e como surgiu a ideia de ter uma exposição que reunisse também um caráter social e educativo, numa comunidade como a Maré?

Luiza -  Logo depois da realização do Travessias 1 em 2011 já iniciamos o planejamento do Travessias 2. Ao longo de 2012 formatamos o projeto, colocamos em leis de incentivo e editais e fechamos os patrocínios. Estamos trabalhando desde meados de outubro na produção do Travessias 2. Esse tempo de preparação foi fundamental para conseguirmos realizar tudo o que foi planejado. Ser social e educativo é fundamental para o projeto. Estamos em uma área desprovida de equipamentos culturais ligados às artes visuais. Para conseguirmos criar um interesse pelo projeto, nesse público que não está habituado ao universo da arte, foi necessária uma mobilização. Procuramos as escolas da região da Maré, através de um termo de cooperação com a Secretaria Municipal de Educação, e de outras regiões. Além de uma parceria com a Rede de Desenvolvimento da Maré, envolvida diretamente na mobilização de grupos.

O Travessias nasceu com a ideia de levar arte contemporânea para a favela, de ocupar a cidade promovendo a interação. Qual foi o legado da primeira edição do evento?

Luiza - A primeira edição foi muito gratificante, aprendemos a lidar com as diferenças entre as nossas expectativas com profissionais atuantes no universo dito "culto" das artes e as expectativas dos moradores e profissionais da Maré e das regiões próximas. A organização foi bastante diferente, pois tivemos apenas 3 meses para produzir o projeto, o que é pouco considerando que o galpão ainda era ocupado por máquinas da fábrica que funcionava lá! Tivemos que fazer obras estruturais para abrirmos a exposição com as condições necessárias.

Qual é o público do Travessias? O carioca já se acostumou com a ideia de atravessar a cidade para visitar a exposição?

Luiza - A exposição acabou de inaugurar com um enorme público de todos os lugares da cidade. Passaram mais ou menos 500 pessoas no dia da abertura pelo galpão esperamos que o público cresça bastante! Para isso, criamos além do programa educativo, uma série de encontros com personalidades e oficinas que serão realizados durante a exposição.  Acho que ainda é cedo para dizer que o carioca se acostumou a atravessar a cidade para visitar a exposição. É um trabalho de longo prazo, mas estamos nos dedicando para criar esse novo hábito entre cariocas e visitantes da cidade.

Dá para dizer que o Travessias é um evento de arte para quem não ‘entende’ necessariamente de arte?

Luiza - Sim. Queremos que o público viva uma experiência de arte, que se sensibilize com as obras dos artistas, com a biblioteca, com o ambiente que criamos dentro do galpão. Não precisa entender, apenas sentir. Esperamos ampliar o horizonte desse público propondo uma experiência estética e sensível ligada às artes visuais.

A arte pode ser usada como ponte para o lúdico , transcendendo questões mais superficiais e auxiliando na formação do pensamento crítico. Que papel o projeto cumpre nesse sentido para os cariocas?

Luiza -  O projeto pretende criar um lugar de referência na cidade ampliando suas fronteiras. Provar que uma experiência sensível de alta qualidade pode ser vivida em qualquer lugar da cidade.

Os moradores da Maré também se apropriam do evento? Qual o feedback da comunidade em relação a exposição?

 Esse ano tivemos um grande envolvimento dos moradores da Maré. Desde o principio, trabalhamos para criar um vínculo entre o projeto e esses moradores, e entre os grupos que desenvolvem trabalhos na região. Fizemos inúmeras apresentações do projeto, tiramos dúvidas, convidamos a todos para participarem e o resultado tem sido emocionante! Se você andar pelas ruas da Maré vai ver cartazes, faixas, stencil nas paredes com a marca do Travessias, essa última proposta por um grupo que trabalha com grafitti e por aí vai... mas ainda temos um longo caminho de conquistas a serem feitas nesse sentido.

Quer mais informação sobre o Travessias? Dá uma olhada no evento aqui no Posto Zero!

(Fotos: Eduardo Magalhães)