Rio de Janeiro com o Espírito Carioca

O cercadinho nas areias

Quando não compartilhar a mesma faixa de areia gera polêmica

01 Mar 2013 às 02:42

Aqualoo no Posto ZeroSe tem um lugar nessa cidade que aproxima as pessoas, que quebra barreira, que faz sentar lado a lado a madame e o porteiro, esse lugar, pelo menos aqui no Rio de Janeiro, é a praia. Ali todo mundo está em trajes que talvez nem valorizem tanto a sua pessoa (nem a minha) mas quem se importa? O que se quer é simples: uma onda para furar e um lugar ao sol para estender a canga. Do galão que sai o mate-limão todo mundo equilibra ali embaixo da torneirinha o copo e pede o chorinho. No Arpoador, a galera se junta para bater palma quando o sol cai; no Leme, a roda da altinha é tanto dos meninos quanto das meninas; no Posto Nove os corpos sarados desfilam pra lá e pra cá; ali no final de Copa, na altura da Bolívar, é o frescobol que toma conta do pedaço; Recreio e Prainha são o paraíso dos surfistas e por aí vai: cada faixa de areia na sua, mas sempre com o alto astral e o descompromisso em comum.

Eis que nesta semana o queixo de muito carioca rato de praia caiu ao ler a matéria da revista Veja, falando do clube que até então nem tinha atraído tanta atenção assim, o Aqueloo Beach Club. O lugar procurou seguir a linha dos beach clubs de balneários europeus, trazendo tendas brancas, serviços estéticos e muita música eletrônica para a beira-mar. Champanhe, menu assinado, a sensação de pertencer a um universo V.I.P. e muitas caras e bocas são lugares comuns deste tipo de clube, aqui ou em qualquer lugar do mundo. Este tipo de clube tem o conceito de trazer luxo e glamour para as areias e por todo esse espaço especial se paga um ingresso bem salgado.

O Aqueloo se instalou numa micro praia, dentro do Forte de Copacabana, que provavelmente você ainda não tinha ouvido falar antes do assunto ganhar a mídia e mais provavelmente ainda, nunca colocou os pés por lá. Nem você nem a maioria dos cariocas, já que a praia ‘pertence’ ao Forte e é fechada ao público. Para pisar lá, só pagando. E bem. E aí você imagina o que este ‘pertence’ vem causando de polêmica já que o argumento líder na lista é de que a praia é pública, seguido de dúvidas como: O Forte pode alugar a praia? Por que não foi feita licitação, já que o ‘bem’ é público? A polêmica foi tanta que agora tem até o Ministério Público na jogada, para averiguar se o processo foi legal.

Além disso, tem outra coisa que talvez seja de fato o maior motivo da revolta: o incômodo que o carioca - aquele que vai almoçar direto da praia com o pé cheio de areia, que sai de biquíni por baixo da roupa para andar de bicicleta porque vai que dá vontade de dar um mergulho...ou que conhece o vendedor do biscoito Globo, o barraqueiro, o 'árabe' da esfiha pelo nome – sente ao ter ali do lado pessoas que não curtem a praia, apesar de estarem nela.

A democracia das praias cariocasNão cabe na cabeça do rato-de-praia que alguém vá à praia sem dar um tchibum, ou que depois de um mergulho, vá fazer uma escova no cabelo. É difícil compreender que para passar uma tarde na praia que fica entre Copa e Ipanema, algumas pessoas desembolsem até vinte mil reais por um camarote. Aliás, camarote na praia por si só já é puxado de conceber, né não? É e não é, visto o sucesso da coisa toda, que apesar dos protestos e das caras feias, levou milhares de pessoas ao cercadinho onde 'se pode ir com o seu rolex ou com a sua Louis Vuitton'. E se não fosse o imbróglio com a Justiça, que faz o Aqueloo dar tchauzinho à pequena praia, o clube teria ficado até o fim de março, estendendo a temporada de estreia e sucesso. Prova de que nem todo mundo acha que praia é lugar de mergulho no mar, roupa de banho e mate-limão.

De um lado, os frequentadores chamando de invejosos os que criticam a praia de tendas brancas e mulheres de salto alto, de outro, uma galera acostumada a ficar com o cabelo duro de tanto sal e almoçar um sanduíche na barraca do Uruguaio. A coisa é que muita gente se divertiu - e vai se divertir até o fim da temporada - ali na Disneylândia praiana-privada, com as mãozinhas para cima ao som do eletrônico bombante. E a outra coisa é que muita gente também se incomodou com isso, chegando a organizar um protesto-galhofa com direito a frango, funk e barcos alugados dos pescadores do Posto Seis, jogando na cara da sociedade do cercadinho tudo que eles têm mais pavor: o junto&misturado.