Rio de Janeiro com o Espírito Carioca

O Sonho da Copa e o Sanatório Geral

O Maior Desvio de Todos Não Poderia ser Medido em Números

post por Marcelo Gluz - 20 Mai 2014 às 05:44

Sim. Desviaram o dinheiro público das mais diversas e criativas formas. Desvia-se com freqüência nesse cantinho escondido do continente americano. De novo mesmo só a revelação pro resto do planeta. Por aqui já estamos acostumados a assistir, entre nossas novelas, às tenebrosas transações dos homens de gravata. É de bom tom se indignar um pouquinho antes de voltar à vida normal.

Beleza. Tudo certo. Tudo tranquilo. A gente aguenta ser feito de bobo como poucas nações. Já nem dá mais dizer que nossa pátria, mãe tão distraída, não percebe as subtrações de dinheiro público. Tem limite.

Já não basta ter feito uma Copa de 12 sedes em vez de 8, pra distribuir agrados Brasil afora. Não basta ter queimado tantos bilhões de dinheiro público pra erguer tantas estranhas catedrais de interesse privado. E nem ter batido o recorde mundial de superfaturamento de obras, passando longe de prazos e da qualidade decente. Além de surrupiar impostos, nos privar de serviços públicos decentes, nos envergonhar perante o mundo, ignorar nossa educação e de maltratar nossa saúde, agora eles estão mexendo com a única coisa que nos restou nesse tempo todo. O sonho da Copa.

​Em plena luz do dia tiraram das nossas crianças seu mais secreto refúgio. Depois de esculachados ano após anos, não sobrou aos barões famintos e napoleões retintos nem um restinho de alegria fugaz. Aprendi desde menino que aqui na terra das bananas (e dos bananas), de quatro em quatro anos a gente lembra que tem país. Lembra que existe algo em comum entre nós. Algo em que - ufa - somos bons.

Antes íamos pra rua, nos juntávamos com os meninos do prédio ao lado e pintávamos a rua unidos por um sentimento de comunidade. A grande comunidade brasileira. Quem não tinha dotes artísticos recortava bandeirinhas auriverdes e pendurava nos postes encardidos. Quem tinha noções de pintura preenchia o asfalto áspero com tinta. Mas quem arrepiava cada paralelepípedo da velha cidade eram os desenhistas. Aprendi a desenhar porque queria ser rei da Copa do Mundo. Aprendi pra participar daquele momento mágico em que o Brasil sujismundo ganhava uns dias de monarca.



Imitávamos os craques de nomes estranhos das figurinhas em campinhos de terra. Schummmacher… Boniekkkk… Cruifffff….. Roger Millaaaa… E sabíamos que o Brasil nos orgulharia mesmo nas derrotas. Porque, pobrezinhos como somos, era quase um milagre estarmos do centro do mundo por alguns dias. E é por isso que os campos das copas sangraram pelos nossos pés. Pois foi por lá que sambaram nossos ancestrais.

Esperávamos a copa como um bolo de chocolate saíndo do forno. O cheiro dela ia invadindo a cidade aos poucos, a expectativa crescia, dava frio na barriga. E sonhávamos, sonhávamos muito de um dia ter de novo uma Copa no Brasil. Parecia algo impossível. Inviável. Improvável. Mas sonhávamos porque a realidade precisava de um freio quando tentava invadir nosso universo lúdico.

E não é que a copa veio mesmo pro Brasil? Com final no Maracanã e tudo mais, bem como acontecia nos sonhos de menino. Mas eis que transformam o sonho em pesadelo e os monstros saem do armário. Tem reunião de vampiro pra chupar o sangue da copa e desfile de lobisomem pra impedir que ela ocorra. Tem marketing demais e coração de menos. E tem um monte de múmia mandando no futebol.

Mas eu acordo e decido que meu sonho eles não roubam. Minha ofegante epidemia vai ficar onde está. Porque na copa eu volto a ser criança.  Vou cantar o canarinho, me vestir de Araquem e pular como o Pacheco. Ai, que vida boa, olerê. Ai, que vida boa, olará.

A Copa será cheia de falhas, como normalmente somos. Teve corrupção e ineficiência no processo, como normalmente temos. Mas vamos receber bem os visitantes - como poucos povos recebem e distribuir alegria - como poucos povos distribuem.

Eu vou ver todos os jogos, decorar a sala, fazer bolão e torcer como um louco, esperando o estandarte do sanatório geral passar pelos meus olhos. E acordar no dia seguinte pronto pra virar mais uma página infeliz e feliz da nossa história. Pronto para passar os próximos quatro anos tentando ajudar a escrever uma história melhor. Mas a Copa do Mundo é minha e ninguém tasca.