Rio de Janeiro com o Espírito Carioca

Rio de Janeiro - Ano 448

A cidade maravilha mutante que faz todo mundo se derreter, apesar dos pesares

01 Mar 2013 às 05:44

Não que um texto sobre o Rio precisasse de aniversário. Mas certamente um aniversário comemorado debaixo de chuva e de greve dos ônibus, merecia um post aqui no Carioquices. Pra gente lembrar que nem só de agruras vive esta cidade. Aliás, aqui o que se faz ou fala sobre a cidade não precisa de muitas premissas, afinal, eis aqui, a capital do 'já é'. Sabiamente, Fernanda Abreu cantou que era aqui o purgatório da beleza e do caos, que era aqui também capital do sangue quente, do melhor e do pior do Brasil. Ao escrever essas frases aqui, nada parece fazer tanto sentido na descrição do nosso Rio. Serjão Loroza, que participou do vídeo institucional aqui do Posto Zero, também falou uma coisa que não sai da minha cabeça, que é o 'não sei quê-não sei que lá', tentando explicar o local de um bar. É isso, o Rio é meio isso, meio aquilo. Meio mar, meio montanha; meio cidade, meio balneário; meio morro, meio asfalto. 

Para além dos grandes eventos que estão vindo e da polêmica envolvendo a praia privada que virou club de verão, é bom ver que rola um pouco mais de coragem de bater no peito com orgulho. Sim, falta ainda esse orgulho reverter em ações em prol da cidade, falta a 'marra' se transformar em exigências ao poder público, cobrando a qualidade de vida que a gente tanto se gaba de buscar. Porém, antes devagar e sempre do que nunca. E por mais digam, que pensem que falem por aí, o carioca não lança tendência só em moda-praia não. Até porque pouco importa com que roupa ou sapato ou relógio você está, aqui o bacana é a postura que você tem diante das coisas. Quantos sorrisos você distribui, o quanto faz rir, quantos amigos legais você tem e continua fazendo. 

É bom ver que acabou aquele estigma de dizer que no Rio a galera não gosta de trabalhar, por exemplo. Aqui neguinho trabalha sim, e muito! Se não fosse por isso, a cidade não tinha alcançado tantos títulos. Carioca pega cada vez mais trânsito, mas fica parado em frente à praia pelo menos. Ou vai trabablhar de bike, e passando pelo calçadão vê um amigo saindo da aula de natação no mar ou stand-up e joga um beijo ou um joinha. E aí né, dá pra agradecer a vista, tirar uma foto e esboçar um sorrisinho por ser carioca ou de pelo menos, morar por esses lados de cá do Atlântico. Dá pra passar na feira só pra comer uma tapioca ou beber um caldo de cana, dá pra ser mulher, parar no balcão de um bar sozinha e conseguir segurar as cantadas numa boa e achando graça, dá pra ser homem sem ser machão-troglodita. Dá pra chegar meio sem avisar mas levando a cerva gelada, dá pra sentir falta do Canecão ou sentir um arrepio quando passa por onde funcionava o Cinemathèque e vê o edfício branco que subiu no local. Dá pra ter filho com nome de Chico e achar graça quando perguntam: "mas não é Francisco?" Dá pra caminhar cedinho na beira do mar junto com as velhinhas de Copa que se exercitam faça chuve ou faça sol. Dá pra morar junto e chamar de marido&mulher. Aqui no Rio de Janeiro, dá. 

Rio de Janeiro, carioca, Rodrigo Romano
(Foto: Rodrigo Romano / série Invertidas)

A redescoberta do subúrbio e o interesse pela favela por exemplo, mostram bem esse desejo de ocupar os espaços, de descobrir as tantas cidades camufladas que formam o Rio. O charme de Madureira, o samba de Oswaldo Cruz, as festas que vão até de manhã no Vidigal, o jazz que rola solto no Pavãozinho, a feijoada do David que bomba no Chapéu Mangueira e por aí vai. E os gringos? Não raro vejo alguém fazendo mímica para explicar que ônibus pegar para o Pão de Açúcar e acho um barato. Porque aqui não tem essa de 'você não fala a minha língua então a gente não se comunica'. O Rio tem língua própria e na boa, carioca adora ensinar o que ele acha que só ele sabe. De mostrar o boa do bairro, de dar 'um toque' sobre tal coisa. Sendo essa cidade que pira, transpira e inspira tanta gente -  o Rio de Janeiro continua sendo.