Rio de Janeiro com o Espírito Carioca

Rojão in Rio

Trocando Esperança por Ação na Cidade dos Extremos Opostos

post por Marcelo Gluz - 21 Mar 2014 às 05:25

O Rio virou um canteiro de obras, o trânsito está insustentável, os preços são ridiculamente altos e, pra completar o cenário, a violência com a qual convivemos tantos anos voltou a nos assombrar em cada esquina. Um contraste muito grande para quem, há um par de anos, sentia que chegara a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor. Pelo menos era o que a gente acreditava quando via a capa da The Economist, a fortuna do Eike e as maquetes da cidade olímpica.

Se você perguntar a causa desse movimento que nos levou de ‘Nova Barcelona’ para ‘Medellín dos anos 80’, a maior parte das pessoas vai responder que a culpa é dos políticos. Como se não fossem eles, os políticos, representações do que cada povo é nas suas mais profundas entranhas. Como se não fossem eleitos por voto democrático. E como se não fossem brasileiros também, e portanto (ô ô) um pouquinho de Brasil (iá iá).

Longe de mim defender a classe política, afinal de contas ela resume didaticamente nossas mazelas, mas não dá mais pra transferir uma responsabilidade que nos pertence. Ou será que os Palácios Pedro Ernesto e Tiradentes são tão diferentes da nossa reunião de condomínio? Chega de dizer que são deles os problemas que, em última instância, são nossos. 

São nossos os carros que fecham cruzamentos pra ganhar uns segundinhos a mais. E o hábito da olhadinha básica no Twitter da Lei Seca antes de voltar pra casa, só pra poder praticar nossa contravenção tranquilamente. Ninguém vai ligar se a gente der aquela encostadinha rápida num local proibido, mesmo que quem vem atrás tenha que parar também. E ninguém liga porque todo mundo faz.

Porque furamos filas com caras inocentes e fazemos cara de revolta quando nos barram no espaço vip. Mas se todo cidadão de bem acha justificável ter uma carteira de estudante falsa pra pagar meia-entrada no cinema como podemos reclamar dos preços da entrada inteira? Não importa se é fresquinho porque vende mais ou se vende mais porque é fresquinho. Dando nome aos bois: Falsificação é falsificação. Desonestidade é desonestidade. E lixo na rua é lixo na rua. 

 

Afinal de contas uma guimba de cigarro é só uma guimba de cigarro e não faria mal a ninguém se não fossem milhões de guimbas de cigarro sendo atiradas nas calçadas, escoadas para os bueiros, se transformando então numa imensa e disforme guimba gigante que obstrui o cano e alaga a via. Aquela via pela qual queremos passar quando começam a cair as primeiras gotas. 
 



O vídeo "Happy in Rio" que abre o post nos retrata como felizes-alienados. Este logo acima, do quadro "Olho x Olho" do CQC, nos retrata como corruptos-incuráveis. Estereótipos a parte, dói muito mais constatar que nenhuma das duas imagens é totalmente injusta. Chegou a hora de assumir a responsabilidade de trocar a esperança (que se esvai) por ação (que constrói). Sob a pena de ter nossas próprias mãos segurando o rojão que atinge um igual, como no caso da morte do cinegrafista. O Rio é lindo, é lindinho, é lindão. Nossas verdes matas e geografia curvilínea são tudo isso que cantamos por aí. E nós somos um povo tão gente fina, que tem bom humor até quando a luz no fim do túnel teima em não se revelar. Sim, somos felizes-incuráveis, mas agora precisamos ser mais. Precisamos ser cidadãos.

 

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