Rio de Janeiro com o Espírito Carioca

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Reimaginado por

Léo Feijó

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Conhecido como empreendedor da noite carioca, Léo chegou a ter dez estabeleci­mentos abertos no eixo Botafogo-Lapa, entre eles Teatro Odisséia e Casa da Matriz. Recentemente co-produziu o Prêmio Noite Rio, é co-autor do livro “Rio Cultura da Noite”, co-criador do Bikini Festival e alimenta outros projetos de cultura. Aqui, neste especial do Posto Zero, Léo faz uma viagem pelos trilhos da cidade. Acompanha quem tem juízo.

Um roteiro alternativo de metrô e trem por botequins, museus e ladeiras esquecidas

Quer conhecer o Rio por ângulos diferentes do cartão postal, em passeios com valor cultural, porém sem a menor frescura? O Rio tem vários roteiros que levam o visitante a ambientes inusitados, a novos pontos de vista, com atrações fantásticas que incluem música, arte e comida. Eu não estou falando só das favelas. Há um Rio escondido, suburbano, pouco visitado pela maioria dos cariocas que vivem em Ipanema ou Copacabana. Eu mesmo descobri esse universo paralelo carioca há pouco mais de dez anos. E não paro de me surpreender.

Podemos pensar num trajeto básico entre a Zona Sul e o Maracanã, na Zona Norte, um caminho que muitos farão por conta dos jogos, até chegar ao Méier. O Metrô do Rio não é lá uma maravilha, mas ganhou várias estações nos últimos anos.

1. Arcoverde ou Siqueira Campos

Se você está em Copacabana, entre as estações Arcoverde e Siqueira Campos estão três lugares imperdíveis: os botecos Pavão Azul, Real Chopp e Adega Pérola, para petiscos. Durante o dia, visite o Parque da Chacrinha, sempre tranquilo e desconhecido dos moradores da região (os que preferem a praia, claro).

Para um almoço ou jantar, a La Trattoria, serve vinhos honestos e massas com azeite tartufado, por preços excelentes. Durante a noite, dê uma chance ao Bottle’s Bar, que reabriu no Beco das Garrafas e foi um dos principais palcos da Bossa Nova, e a Fosfobox, principal club de Copacabana, com atmosfera tolerante e ótima variações de música eletrônica na pista.

2. Botafogo

Descendo do Metrô na Estação Botafogo, você estará num ambiente com novos bares, como o Colarinho, e a Venda Mineira, ambos na rua Nelson Mandela. Talvez esses sejam mais adequados para o happy-hour, na volta. E se fizer isso caminhe um pouco mais para conhecer o Teto Solar, anexo ao Teatro Solar de Botafogo, com espetáculos teatrais e shows de novos artistas muito talentosos. Ali perto fica a Casa da Matriz (sou suspeito), um lugar para jovens que estão na universidade, e a Comuna (espaço de artes, gastronomia e que recebe alguns DJs).

3. Catete e Glória

Depois de Botafogo vamos pular uma enorme região que tem Flamengo, Catete e Glória para chegar até a Lapa – exceção que faremos ao The Maze, um hostel que fica no alto da Tavares Bastos, com subida pelo Catete, no alto de uma favela, com shows de jazz eventualmente às sextas e uma vista panorâmica espetacular. Lá perto está o Casarão Ameno Resedá, casa de shows de música brasileira refinada. Durante o dia, na Rua Barão de Guaratiba fica um dos menores e mais simpáticos botequins do Rio, o Bar do Zé (Britan Bar, oficialmente). O dono está sempre de mau humor e o banheiro não é como do Copacabana Palace. Mas quem liga?

4. Cinelândia até Presidente Vargas

Retornando ao nosso caminho à Zona Norte, passamos obrigatoriamente pelo Centro do Rio, uma região que respira história. A Lapa é a primeira parada, com dezenas de bares, casas noturnas e shows. Minha opinião: a Lapa merece uma visita sim. Pela arquitetura - os monumentais Arcos da Lapa e o casario antigo - e pelo agito noturno. Por tudo que significou na recuperação da música carioca, do samba e do choro a partir dos anos 1990 – com Carioca da Gema, Semente e Rio Scenarium - e por ter espaços de shows como Circo Voador e Fundição Progresso, onde se apresentam bandas de toda parte do mundo. Mas hoje você deve chegar com cautela. A multidão atrai pequenos assaltantes, é bom ir acompanhado de um carioca que conhece o ambiente.

Para uma caminhada ladeira acima, há sempre Santa Teresa, que fica colada na Lapa e pode ser um programa para almoço e um olhar de flaneur sem compromisso. Recomendo o Bar do Gomes (Armazém São Thiago) e os bares do Largo das Neves. O bondinho, pena, segue desativado. Durante o dia, o Centro oferece inúmeros museus, como o MAR(Museu de Arte do Rio), o Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), o Museu de Arte Moderna (MAM), entre outros. No Centro há também vários corredores culturais, como nas ruas do Ouvidor, do Rosário e do Mercado. Um ambiente que tem âncoras como o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), onde exposições já provocaram filas de madrugada, numa tendência universal de integração dos museus ao circuito noturno. A Zona Portuária é um destino que já oferece alguns bares, pistas e casas de samba. Durante o dia, visite o Morro da Conceição, pertinho do Museu de Arte do Rio.

5. Estácio, São Cristóvão ou Cidade Nova

Já vamos chegar ao Maracanã, mas antes vamos parar na Praça da Bandeira. Um bairro que fica na divisa entre o Centro e a Zona Norte. Há atualmente destinos culturais noturnos em diferentes geografias. Aqui é importante diferenciar dois universos, mas que podem até se completar. Do lado direito da Praça está a Rua Ceará, com sedes de motoclubes e espaços mais alternativos que oferecem bandas de heavy metal e DJs de rock, com o Duck Walk Pub e o Porto Pirata – mas para ir lá é bom ir acompanhado de algum "local", ok? É fácil se perder (em todos os sentidos), pois a Rua Ceará fica perto da Vila Mimosa, a principal zona de prostituição do Rio. Do lado “esquerdo” da Praça da Bandeira (na verdade hoje é cortada por autopistas de alta velocidade), vá ao Bar do Botto, ao Bar da Frente e ao Aconchego Carioca. Atenção aos preços dos cardápios, porque o Aconchego ficou internacional – mas tem uma excelente carta de cervejas e um camarão na moranga de chorar. Outra dica: vá cedo, porque as filas são enormes.

6. Maracanã ou Afonso Pena

Seguindo a linha do trem, chegamos ao Estádio do Maracanã. Nos arredores há vários bares e restaurantes simples e ótimos, como o Salete e suas empadinhas e risotos, ou o Otto, que serve um excelente palmito na brasa com carnes. Mas vamos em frente porque não estamos aqui só pelo futebol, certo?

7. Grande Méier

Vamos direto para a Grande Méier, um conjunto de 15 bairros que é a minha sugestão final. Você pode ir um espetáculo no Imperator, no Méier – o Centro Cultural João Nogueira ou experimentar o incrível circuito de bares da área. Nessa região do Méier, Cachambi, Engenho de Dentro, Lins e Piedade – podemos incluir aqui os vizinhos do Grajaú – há uma infinidade de bares, comida farta e popular. Eu recomendo organizar com amigos o aluguel de uma van e o convite a um especialista em bares e baixa gastronomia para esse passeio. Na minha lista não faltariam o Bar Castro, a Casa do Bacalhau, o Cachambeer, o Enchendo Linguiça, o Bar Clube do Choro, o Cachorro-quente do Gaúcho, o Bar Leiteria Flor do Méier e o Xodó do Méier.

Deixe-se levar

Ser turista é se deixar levar pelo acaso também. Em meio a todas essas sugestões, há outros universos paralelos. Os visitantes (e os cariocas também, e eu me incluo aqui) têm muito a descobrir além do Pão de Açúcar e do Corcovado. A ordem é garimpar boas experiências e curtir os nossos botequins, que afinal foram oficialmente declarados Patrimônio Cultural Carioca.